Histórias cruzadas (ou tributo à minha vila)
Sintra é um lugar mágico.
Com castelos e palácios, com a serra sempre envolvida pela bruma, é do conhecimento
geral que aqui, não apenas viveram reis e princesas, como também fadas, duendes
e outros seres mágicos.
Hoje decidi dar uma volta no autocarro turístico que, desde há pouco tempo,
faz o trajeto desde a Portela aos jardins do Palácio da Pena.
Entro no autocarro e constato que vai cheio. Cheio de turistas, que vêm de
todos os lados, pelo que é possível ouvir, aqui e ali, conversas em vários
idiomas. É o dia 21 de Dezembro de 2017.
No sítio do chauffer, lá à
frente, senta-se o Aníbal. Aníbal está cansado e só pensa que este Natal será
diferente: Lurdes, sua companheira durante toda a vida, faleceu em setembro, de
um AVC. Aníbal ainda não se recompôs e a única coisa que consegue fazer
mantendo a cabeça no seu sítio, é conduzir o seu autocarro – como se o
autocarro o levasse de novo para junto da sua Lurdinhas.
Mostra o bilhete Javier, que esconde os seus olhos azul-mar atrás de uns Rayban. Javier tem 28 anos e ontem,
antes de apanhar o voo para Lisboa, Javier e Carlos beijaram-se. Ana, sua
namorada, não pode sequer sonhar. Javier não sabe explicar o que aconteceu.
Simplesmente, aconteceu. Senta-se nos bancos do fundo e olha através da janela,
ausente.
Jacques y Marie estão sentados lado a lado e entrelaçam as mãos. Vieram a
Sintra comemorar o aniversario do seu casamento. No ano passado, por estos dias,
Marie subia ao altar na Catedral San Pièrre para dizer “sim” a Jacques – o amor
que encontrou quando tudo já parecia perdido; quando já deixara de acreditar no
amor. Marie ainda não sabe, mas no seu ventre leva já o pequeno François e de aqui
a dez dias, quando Marie contar a Jacques, chorarão juntos de alegria.
Maribel é solteira. Já passa dos cinquenta e nunca se casou. Quando jovem,
teve um grande amor, Pablo, mas Pablo partiu para a Colômbia há muitos anos e
Maribel nunca se voltou a apaixonar. No bolso, leva um décimo da taluda de
Natal. Ainda não sabe, mas amanhã sai-lhe o “Gordo”, como denominam os
espanhóis o grande prémio de loteria de Natal.
João saiu de casa esta manhã e ninguém sabia que ia entrar neste autocarro,
mas aqui está ele agora. O autocarro passa diante da rocha onde ele e Tânia se
beijaram pela primeira vez, faz já quinze anos. João é agora casado com Soraia
e tem dois filhos, Joana e Pedro. Pensou que refazer a vida o faria esquecer Tânia,
mas não foi assim.
Tânia está em casa e pensa em João. Todos os dias pensa nele. Faz sete anos
que não o vê. Pensava que deixar de vê-lo a ajudaria a esquecê-lo, mas agora intui
que não. Que aquele amor, é um amor para a vida toda.
A Tânia e o João não se verão hoje. Talvez não se vejam nos próximos dez
anos, mas todas as noites, enquanto dormem, estão juntos outra vez em Sintra e
recordam o muito que se amaram naquela rocha; na Periquita; no Palácio da Pena.


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