Experiência de Escrita de um Livro

Boa noite Cristina!
Antes de mais, muito obrigada pelo seu interesse na minha experiência… São temas sobre os quais eu adoro conversar.
Porque escreve?
Desde os doze anos que a minha avó me impulsou a escrever. Lembro-me das tardes de sexta-feira, que eram livres de escola… Eu passava-as a escrever pequenos contos ou mesmo poemas (para os quais nunca tive muito jeito!). Talvez o gosto pela escrita nasça em mim através da descoberta de que a escrita pode ser uma ferramenta potente de terapia, neste sentido: para mim a escrita surge, não apenas como passatempo, mas sim como um veículo de liberação e organização de ideias. Seja o que for que esteja a sentir, parece sempre melhor no papel! Como alguém dizia: “o papel é paciente e aceita tudo”. Normalmente quando me encontro em estados extremos, seja de depressão ou euforia, existe em mim a necessidade de criação de algo. No primeiro caso, quando me encontro deprimida, há a necessidade de transformar a dor em algo útil – e isso dá-se através da criação de algo literariamente belo (sim, porque a dor pode ser bela, se devidamente analisada!). No segundo caso, quando me encontro feliz ou eufórica, há a necessidade de perpetuar de certa maneira esse momento – uma vez mais, através da criação literária. Em ambos casos, isso sim, há uma necessidade imperiosa de “expurgar” algo (uma sensação, um sentimento, uma experiência) de mim.
Como surge a ideia de escrever um livro?
A ideia de escrever um livro surge de pequena… E no princípio dos princípios, essa ideia é apenas um sonho. Depois de muitas tentativas deixadas a meio, de histórias múltiplas (onde se escrutina sempre algo de mim, como não podia deixar de ser), surge em mim “O livro”. “Ninguém escreve numa ilha”, por isso esse livro surge de uma experiência humana vivida. Neste sentido, não sou eu que escolho a história, mas sim a história que me escolhe a mim. Levei sete anos para escrever o meu primeiro livro, mas a história estava dentro de mim e, naquela altura, não havia nada que eu desejasse mais do que traze-la à luz. Era também uma forma de contar “a verdade” pelos olhos dos meus personagens, que em última instância, são os meus olhos.
Quais as principais dificuldades sentidas antes de escrever o livro?
Para mim, a dificuldade maior era conviver com a história que levava dentro e saber que cabia a possibilidade de que se encerrasse em mim para sempre, sem nunca ver a luz. A ansiedade por escrever foi talvez a principal dificuldade sentida antes de escrever.
Quais as principais dificuldades sentidas durante a escrita?
A escrita é uma coisa morosa. Por experiência, sei que se levam anos até construir algo que reproduza fielmente aquilo que desejamos contar. São muitas (e quando digo muitas, são mesmo muitas!) horas dedicadas ao nosso projecto.
Outra dificuldade é o desânimo. Por vezes escrevemos, escrevemos, escrevemos e não vemos a luz ao fundo do túnel. Parece um caminho interminável que, pode não ir dar a lado algum (isso é algo que não sabemos durante o processo criativo).
E depois?
Bom, quando terminamos; quando escrevemos a palavra “FIM”; a sensação é única! Finalmente, depois de anos, o nosso bebé nasce e vê a luz! Para mim, o projecto ficou concluído quando saiu da minha caneta para o papel, porque o meu livro está aí, à luz de quem o queira ler.
Sem dúvida que depois da escrita, a maior dificuldade é conseguir a publicação do livro.
Durante a minha trajetória nas letras, já ganhei vários prémios e menções honrosas por escrever, em Concursos Nacionais, e posso dizer que isso não garante absolutamente nada… Publicar continua a ser tão difícil como se não tivesse qualquer referência.
Que conselho daria à sua melhor amiga se ela quisesse escrever um livro, tendo em conta a sua experiência pessoal?
Penso que não basta simplesmente “querer”, com a leveza de quem quer ir ao cinema ou dar um passeio no jardim. A história tem de madurar dentro de nós (pode até madurar por tentativas múltiplas de histórias) e chega finalmente o momento do nascimento… Em que já não se pode viver com essa história só para nós: há que dá-la a conhecer ao mundo.
Dois conselhos deixaria:
1.      Aprender a olhar para as mais insignificantes situações do dia-a-dia com os olhos curiosos de uma criança, que observa tudo pela primeira vez. E assimilar tudo dessa situação: cheiros, cores, texturas, emoções produzidas…
2.      Não ter medo e escrever. Escrever sempre.
Entrevista de Cristina Ramos (jornalista pela Universidade Independente de Lisboa) a Ana Rita Rocha (blog: Paleta de Muitas Cores).


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