As tuas adoráveis coisinhas detestáveis

Era uma vez uma rapariga loira que andava na sua vida, feliz e alienada do mundo, mergulhada em pensamentos vários; lutando por ser cada dia mais e melhor.
Heis senão quando, decide um dia ir a um encontro de "Portugueses em Madrid" só porque estava aborrecida e achava que tinha de amplificar a sua rede de contactos...
Vai daí, conheceu "o chato". Aquele tipo de melga, que assim que a conheceu, não voltou a desgrudar. O  "chato" era aquele tipo de gajo que era demasiado simpático e agradável, que tirava fotografías à rapariga, que tentava dar um ou dois dedinhos de conversa, que se colava quando a rapariga estava a fazer planos com outras pessoas… Enfim… "Chato" era o seu nome!
Nisto passaram-se dois anos. A rapariga e o "chato" encontravam-se de vez em quando… Não era na realidade raro que tardes planeadas para serem passadas juntos, fossem subitamente desmarcadas à última hora pela rapariga. O "chato" era chato e aborrecia-a.
A rapariga recorda ainda o dia em que passaram um serão juntos e o chato pediu-lhe para que lhe revelasse o que as cartas do seu baralho de Tarot lhe tinham a dizer. Vai daí a rapariga lançou-lhe as cartas e quem vê ela na casa do amor dele? A Sacerdotisa! Uma mulher recatada, instruída, conhecedora do seu poder e sábia. A rapariga imediatamente percebeu que na casa do amor estava… ela mesma! E pensou: "Vade Retro"!
Nisto passou-se mais um ano e os dois não se encontraram.
Num belo dia de Verão, a rapariga foi à piscina e lembrou-se de perguntar pelo chato, pois fazia um ano que não sabia nada dele. O chato apareceu em havanianas em casa da rapariga. Nessa tarde foram juntos à piscina e jantaram num bonito restaurante na Plaza Colón. A rapariga levava um elegante kimono vermelho com umas sandálias negras e o chato... bem, o chato, foi de havanianas e calções, o que à rapariga lhe pareceu detestável.
Conversa vai conversa vem, um belo dia descobrem que têm os dois o contrato de renda da casa a acabar no mesmo mês. Nisto, combinam ir viver juntos... Na mesma casa, mas separados, que a rapariga não quer cá confusões! Chegam a celebrar e tudo, mas uns três ou quatro días depois a rapariga telefona ao chato e diz-lhe que mudou de ideias (coisa que é muito frequente na rapariga!)… Que afinal é má ideia irem viver juntos. O chato pode ter muitos defeitos, mas se há coisa que ele tem é paciência para aturar a rapariga. Vai daí, nem se chateou.
Dias mais tarde, a rapariga sente falta do chato... Quando o vê, começa a falar de outra forma com ele… Afinal, em três anos, ele tinha sido a presença mais constante na vida da rapariga, acostumada a viver só. Nesse dia, jantam juntos num restaurante chinês. Não sabem que raio se lhes pôs na comida, mas vai daí, beijaram-se. 
Isto foi há cerca de um ano atrás e hoje são namorados. A rapariga sente borboletas na barriga quando ele chega a casa e abraça-o como se fosse aquele o seu porto de abrigo.
Adora o cheiro dele, os beijos e a forma como ele olha para ela.
Ele, acha que ela é uma tresloucada, inconstante e insegura, mas ama a loucura dela, ao mesmo tempo que a teme.
Continuam a discutir. Ele deixa tudo espalhado pela casa, cada chinelo numa divisão diferente, a roupa suja misturada com a roupa lavada. Desconhece o sítio da máquina de lavar roupa e molha a casa de banho quando toma banho. Nunca fecha a tampa da sanita. Ao fim de semana, ela acorda às 7h da manhã, cheia de energía para empregar em alguma actividade diferente e ele gosta de dormir até à uma - missão impossível, quando ela está por perto! Ele continua a ser um chato. Adora picá-la e dizer-lhe coisas só para a ver irritada e com a cara vermelha de raiva. Isso diverte-o imenso. 
Ela espuma de raiva, irritada e às vezes diz-lhe barbaridades. Então, ele faz-lhe cócegas nos pés e ela ri-se até às nuvens, embora o odeie por isso.

Não podiam amar-se mais.







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