Memórias avulsas



Um dia, depois de um largo tempo de sono inconsciente, despertei, confusa, na cama de um hospital. Ao meu lado estava uma amiga de longa data, que me dava a mão e chamava o meu nome, e aos pés da cama, estava a minha mãe. A minha mãe olhou para mim e voltou a concentrar-se na tarefa que estava a levar a cabo. Entre as mãos, tinha um frasco de verniz cor-de-rosa, aberto. Molhou o pincel e continuou tranquilamente a pintar-me as unhas dos pés.

Meses depois, mudei-me para Madrid. Vim sózinha. Quando cheguei, comprei vários vernizes de diferentes cores. Passava horas a descobrir as cores que ainda não tinha na minha colecção. Depois, as minhas tardes eram passadas a pintar as unhas, na solidão da minha casa.
Nessa altura, tinha um namorado, que deixara em Portugal. À tarde, por vezes ele ligava-me. Era costume perguntar-me o que fazia no momento. De forma honesta, eu dizia-lhe: "estou a pintar as unhas". Às vezes, descrevia-lhe a cor. Até que um dia ele me disse que não me ía ligar mais; que eu não tinha nada de novo para lhe contar e que ele não estava para ouvir que eu estava a pintar as unhas, ou aquilo que eu tinha almoçado. Engoli em seco.

Este fim de semana, voltei a pintar as unhas das mãos, no silêncio da minha sala.

Hoje cheguei de viagem. A pintura das unhas não durou. A pintura das unhas estava como eu.  Imperfeita. Fracturada.

Quando pinto as unhas, penso sempre na minha mãe.






  

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