Os cantinhos da Teresa
Teresa é o nome da mãe do meu namorado, potencialmente, futura sogra.
Conheci-a, primeiro nas palavras do Guilherme, depois, num dia como tantos outros, em que, vindos de Espanha, o deixei em casa dele e Teresa estava à porta.
Já namorávamos há cerca de um ano, mas nesse dia e só nesse dia, o Guilherme me apresentou à mãe - o primeiro elemento da familia que viria a conhecer.
"É a Rita, minha namorada."- disse, timidamente, à mãe. Teresa sorriu, surpreendida pela novidade e abraçou-me, afavelmente.
Passaram mais de seis meses desde esse dia.
O meu namorado é uma pessoa que fala pouco. Só diz o essencial. Através dele, por palavras, é por vezes difícil descobrir mais. (É preciso apurar os outros sentidos, para o ouvir.) Mas quando fala, eu sei, que diz muito mais em cada palavra, do que efectivamente, me é dado escutar.
Um dia disse-me:
- A minha mãe… Já passou por tanto.
Teresa também fala pouco. E fala baixo. Mas é preciso apenas um pouco de atenção, para a conhecer.
Quando vê o Guilherme, abraça-o sempre, com a saudade que a distância traz. Às vezes diz-lhe: "Nem sabes como sentimos a tua falta!", e as lágrimas vêm-lhe aos olhos, sem querer.
No Natal, na casa do Guilherme, encontrei montada a mais bonita Cidade Natal, que alguma vez vi - incluindo as de espaços comerciais. Nesta "Cidade Natal", além dos trenós, dos meninos com cachecóis, do Pai Natal, não faltavam luzes, nem tampoco uma roda gigante, que dava voltas, ao som de uma música de Natal.
Esta semana, por ocasião do falecimento da avó paterna do Guilherme, deslocámo-nos à aldeia - onde os país do Guilherme têm uma pequeña casa rústica, em pedra. Encontrámos os país do Guilherme na Igreja, que, sensibilizados, nos abraçaram calorosamente.
Não esperavam que nos metessemos no carro e viessemos desde Madrid ao seu encontro, para o funeral - que se realizou no dia seguinte ao fatídico acontecimento. Mas... poderíamos nós ter feito algo diferente?
A aldeia é bonita: há campo até onde a vista alcança e a rede de telemóvel é bastante fraca, pelo que ficamos envolvidos numa borbulha, como que noutra dimensão.
Quando entrei na pequena casa, descobri mais dos segredos e sensibilidade da Teresa.
Na sala, há tachos e panelas antigas, que baloiçam suspensos nas tábuas de madeira do teto. Ao canto, há uma lareira, que o Gonçalo, irmão do Guilherme, acendia todas as noites.
Na casa de banho, alguns pormenores captaram a minha atenção: os sabonetes empilhados dentro de um frasco transparente e a toca de banho - branca com bolinhas cor-de-rosa, franzida nas extremidades e adornada com um lacinho cor-de-rosa - a fazer lembrar os anos 50.
Instalamo-nos no quarto pequeno. Por cima da cama, está pendurado um quadro com três meninos que patinam no gelo, vestidos de verde, creme e vermelho. Foi a Teresa que pintou. Aos pés da cama, há uma casa de bonecas, que a Teresa montou. Tem uma cama, com colcha e travesseiro, uma cómoda, tábua de engomar com um ferro de brincar, loiças em miniatura, uma mesinha com cadeiras em madeira...
Teresa mostrou-me cada peça, onde ela pôs amor e cuidado, como em tudo o que faz.
Teresa é uma presença quase etérea. Às vezes tenho a sensação que flutua sobre este mundo, sem ser verdadeiramente de cá, preenchendo com cor e sensibilidade, os nossos espaços, o nosso coração.
O Guilherme herdou dela a sensibilidade.









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