Transacções Comerciais
Corria o ano 2012, Abril. Eu tinha então 29 anos.
Circunstâncias da vida, nesse ano, fui obrigada a abandonar o meu país, a minha familia, o meu trabalho e os meus amigos.
Nesse ano, comecei de novo. Sem entusiasmo, sem brilho no olhar. O meu recomeço, noutro país e desde zero, foi antes uma "fuga para a frente".
Desde aí, tentei, da melhor forma possível, adaptar-me à minha nova realidade, que, graças a Deus, desde 2012, foi ganhando cor e alegria.
Quando estamos sózinhos num local novo, por mais que sejamos pessoas relativamente solitarias e adaptadas, é inevitável sentir, em algum momento, solidão. Solidão de verdade. Daquela que não se escolhe. Daquela que doi e corroi por dentro. Por isso, várias foram as tentativas da minha parte para formar um novo círculo de amizades.
Aos 29 anos, é tarde. É já tarde para criar um novo círculo de amizades: quase todas as pessoas com quem me cruzei, tinham já o seu círculo de amigos bem definido, com quem combinavam tardes de esplanada ao fim de semana, cafés, dois dedos de conversa ao final do dia de trabalho. O seu círculo de amizades estava fechado, bem definido e incluía amigos de infância, da universidade, quando não o marido ou a esposa e filhos. Todos, mas não a mim.
Mas eu tentei. Juro que tentei. Não raras vezes, pensei ter uma amizade, quando na realidade o que queriam ou esperavam era uma "transacção comercial". Mais ou menos assim: dou-te o meu sorriso e a minha palavra amiga, e em troca das-me o teu dinheiro, compras-me a mim em vez de a outro.
É triste. É triste ter de admitir que na minha busca sincera de amizades, o que encontrei basicamente foram pessoas a tentar vender-me produtos, tempo ou serviços. Nada contra vender, eu mesma sou gestora comercial, mas há espaços para tudo, eu creio.
Suponho que assim vai o mundo.
Eu tive outros valores. Não sou mais que ninguém, nem diferente, mas cresci a ver o meu avô a dedicar as quintas-feiras a ir jogar futebol com os doentes mentais do Telhal. Cresci com o meu avô a oferecer livros que entendia serem de utilidade a todas as pessoas que conhecia, pagos do bolso, pequeno, dele. Cresci com o meu avô a dar aulas de yoga grátis, quando a formação que teve implicou voos constantes para a Madeira, muitos anos antes, quando ainda não havia voos low-cost. A minha mãe, herdou dele o mesmo sentido de generosidade e altruísmo. E eu, bem, eu não herdei. Mas não deixei de crescer com esses valores, por isso penso que estender a mão a alguém, sem pensar em receber, nessa mão, nada mais do que a mão do outro para o ajudar a percorrer o seu caminho, deveria ser algo natural, pelo menos um pouco mais natural do que é nos dias de hoje.
Talvez devido a essa minha crença, hoje realizei uma acção. Ofereci o pouco tempo que tenho às sextas-feiras à tarde, às vezes, o meu único momento de descanso, para traduzir a obra de um escritor espanhol que aprecio, ao português. Porque o fiz? Porque sim. Porque pensei que também os portugueses gostarão de ler aquele livro; porque talvez lhes transmita tanto como me transmitiu a mim…
Em troca, bem… Em troca, peço que aceite. Em troca, não peço nada. Nada mais do que o que tenho e pelo qual sou grata.



Parabéns pela magnífica escrita. Você me representa! Sou eu um personagem do seu texto, apenas que os mesmos fatos vivera eu aos 58 anos... Amei. Amei. Você é extraordinária.
ResponderEliminarMuitos beijos e um abraço forte.
Meu querido amigo Joel! Muito obrigado por deixar seu comentario! Gosto tanto de saber que você me lê. Muito obrigada!
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